Início dos anos 90. Ainda estava no curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba. Eu e Mônica Câmara éramos unha e cutícula. Estávamos sempre juntos e sempre fazíamos os trabalhos encomendados pelos professores de forma coletiva.
Um dia, recebemos como missão de um professor, não lembro qual, entrevistar uma personalidade famosa da Paraíba. Mônica se antecipou logo e sugeriu Dom José Maria Pires, o então arcebispo da Paraíba. Figura carismática, ligada aos movimentos sociais e representante da igreja progressista, Dom José – que também era conhecido por Dom Pelé, por ser negro – era um mito aqui na Paraíba. Imaginei, de cara, as dificuldades que teríamos para entrevistá-lo.
Ao chegarmos na Casa Paroquial, a surpresa. Não houve muito moído para sermos atendidos. Aguardamos Dom José na sala, orientados pela assistente dele, e logo, logo chega nos cumprimentando, com uma fala mansa e um sorriso simpático nos lábios, o próprio.
Depois dos cumprimentos de praxe, ligamos o gravador e começamos a conversa. Como era de se esperar num encontro com dois estudantes, a conversa fluiu de forma descontraída e sobre assuntos superficiais. O papel da Igreja na atualidade, a atuação nos movimentos sociais, enfim, tudo abordado com inteligência e sapiência pelo arcebispo. Após pouco mais de uma hora, encerramos a entrevista, nos despedimos felizes e saímos da Casa Paroquial ainda sem acreditar que tínhamos conseguido entrevistar o arcebispo Dom José Maria Pires.
Corremos para o Parque Solon de Lucena pegar o ônibus para casa e conferir o “furo” de reportagem que tínhamos dado nos demais colegas do Departamento de Comunicação. Qual não foi a nossa decepção quando, ao ligar o gravador, constatamos que não havia sido gravado nada. Na verdade, tínhamos ligado o aparelho, mas, empolgados que só nós, esquecemos de apertar o botão que aciona o mecanismo de gravação.
Frustração pouca é bobagem. Claro que ficamos nos culpando um ao outro, além de lamentar. Mas uma hora Mônica teve a feliz ideia de tentarmos de novo.
– Tu é doida? Ele não vai atender mais a gente -, falei para ela.
– Bem, não custa nada tentar. Melhor que tirar um zero do professor.
Mônica tinha razão. Combinamos ir outro dia lá. E foi o que fizemos. Voltamos à Casa Paroquial, falamos com a assistente do arcebispo, explicamos o que tinha acontecido e, para resumir a história, Dom José nos recebeu de novo. Mas não esqueceu de perguntar, antes de iniciar novamente a entrevista:
– O gravador está em ordem agora?
Só faltou a gente pedir para ele abençoar o aparelho.
