5 de novembro de 1993.
Eu era Chefe de Reportagem do jornal A União, órgão oficial do governo da Paraíba, Fernando Moura era o editor geral e Nonato Guedes o superintendente.
Chego na redação e vou à sala da editoria para combinar as pautas do dia quando Moura afirma, sem meias palavras: Ronaldo deu um tiro em Burity. Ronaldo Cunha Lima era o então governador da Paraíba, tendo substituído justamente Tarcísio Burity no Poder Executivo do estado.
A minha reação foi cair na risada, achando que era brincadeira.
– Não ria, não, porque é verdade! E se prepare que o dia hoje vai ser tenso! – disse Moura.
E de fato seria!
Fui orientado a escalar repórteres para os principais locais, como o Hospital Samaritano, onde Burity foi internado, o Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba, e na Polícia Federal.
Escolhi os meus melhores repórteres e mandei eles para os locais determinados.
Os demais repórteres ficaram cobrindo as pautas cotidianas daquele dia na cidade.
O clima na redação era de tensão e apreensão, claro.
Como o jornal A União, sendo um órgão do governo, iria dar a notícia em suas páginas?
Era a pergunta que todos fazíamos nos intervalos do trabalho, nos corredores do jornal, cuja redação ficava no bairro de Jaguaribe. A diretoria e as oficinas ficavam no Distrito Industrial.
Entre um café e outro, só se falava neste assunto.
Ronaldo tinha dado um tiro em Burity no restaurante Gulliver. Segundo consta, após uma entrevista de Burity, numa emissora de televisão, com fortes críticas a Cássio Cunha Lima, filho de Ronaldo e na época superintendente da Sudene.
O dia corria lentamente.
Pouco a pouco os repórteres chegavam das ruas e começaram a redigir seus textos nas máquinas datilográficas sobre o ocorrido. Enquanto isso, o jornal estava “suspenso”, porque ainda não tínhamos orientação de como proceder.
No final da tarde liguei para Nonato Guedes. Estava com as matérias produzidas sobre o caso e perguntei a ele o que deveria fazer. “Mande todas para mim aqui no distrito, por malote. Ainda vou decidir o que fazer. Feche o miolo do jornal com o noticiário normal mesmo e deixe só a primeira página aberta. Vou fechar ela por aqui mesmo”, determinou.
Chamei os editores setoriais, orientei eles a editarem suas páginas normalmente.
Àquela altura, Fernando Moura já estava no distrito para decidir com Nonato e com a diretoria como fazer.
Fechamos o miolo do jornal e saímos para tomar uma cerveja no bar de Ferreti, pertinho da redação do jornal.
Merecíamos uma cerveja depois de um dia tão tenso.
E a primeira página do jornal, como saiu no dia seguinte?
Bem, isso é assunto para outro texto!
(Da série, “Memórias impressas”)
