Há uma crítica recorrente ao Concílio Vaticano II que parte de um diagnóstico sedutor: o Concílio teria sido apenas um experimento pastoral fracassado e, por isso, deveria ocupar um lugar secundário na vida da Igreja.
Ora, dizer que o Vaticano II foi “apenas mais um concílio” simplifica excessivamente a história. Todos os grandes concílios foram “mais um” em seu tempo: Niceia definiu a divindade de Cristo, Trento respondeu à Reforma, Vaticano I tratou da infalibilidade papal. O Vaticano II enfrentou um desafio diferente: anunciar a mesma fé em um mundo profundamente transformado. Seu caráter pastoral não diminui sua importância; ao contrário, revela uma escolha consciente de como comunicar verdades permanentes.
Portanto, dizer que é melhor abandonar o Concílio por ser “confuso” ignora um princípio essencial do catolicismo: a tradição não se constrói por substituição, mas por continuidade. Bento XVI insistiu justamente na “hermenêutica da reforma na continuidade”, rejeitando tanto a ruptura progressista quanto a nostalgia de um retorno idealizado ao passado. A Igreja não precisa escolher entre Trento e Vaticano II; ela é herdeira de ambos.
O verdadeiro desafio talvez não seja enterrar o espírito do Concílio, mas finalmente compreendê-lo sem caricaturas. Afinal, uma Igreja que vive apenas olhando para trás corre o risco de transformar a tradição em museu. E uma Igreja que esquece sua tradição perde a própria identidade. O Vaticano II continua relevante exatamente porque tentou manter essas duas dimensões unidas.
