Era editor adjunto do jornal A União.
Um dia, chega um envelope com umas colaborações para o Correio das Artes, cujo editor era Cláudio Limeira. O Correio das Artes, para quem não sabe, é o suplemento literário mais antigo em circulação no Brasil. Hoje ele sai mensalmente em formato revista, encartado no jornal A União, órgão oficial do governo da Paraíba.
Mas falava do envelope com as colaborações para o Correio das Artes.
Confiro. Eram poemas de louvação e apologia ao governador de então, com solicitação para que eles fossem publicados no Correio das Artes.
Engavetei tais poemas, claro.
Passado um tempo, sou chamado ao gabinete do superintendente do jornal.
Ele me mostrou uma longa carta e pediu para que eu a lesse.
Li.
Era uma carta do cidadão que teve os poemas engavetados dirigida ao governador. Reclamava da minha atitude de ignorar seus poemas e me chamava, entre outras coisas, de quinta-coluna. A carta teria sido encaminhada pelo governador ao superintendente, para as devidas providências.
Li a carta e sorri.
O superintendente perguntou se o conteúdo da carta era verídico.
Eu disse que tirando a parte do quinta-coluna, era verdade, sim. Que eu tinha engavetado os poemas do cidadão e expliquei os motivos.
– Mas tem certeza que não tem como publicar tais poemas?, perguntou.
Respondi que pelo critério literário, não. Que ele, enquanto superintendente, tinha o poder de decidir pela publicação, mas aquilo mancharia a história de meio século do Correio das Artes, que sempre primou pelo critério literário (e não político) na publicação de seus textos.
O superintendente riu, pediu os poemas do cidadão para conferir e me dispensou, dizendo que ia ver como resolveria aquele moído.
Nunca mais tocou no assunto e os poemas nunca foram publicados.
Tempos depois, em outra gestão e em outro governo, eu era editor do Correio das Artes. E recebi, a título de colaboração, novos poemas de apologia ao governador de plantão. Tive o mesmo procedimento de engavetar tais poemas, mas desta vez comuniquei ao diretor do jornal, que ainda hoje é meu amigo. Ele concordou com minha atitude e não se falou mais no assunto.
Em tempo: tenho até hoje guardada em meus alfarrábios a carta original do cidadão que me chamou de “quinta-coluna”.
(Da série “Memórias Impressas”)
