Vi no site da Câmara Municipal de João Pessoa uma matéria informando que o vereador Carlão (PL) utilizou a tribuna para denunciar uma suposta perseguição religiosa contra cristãos católicos e evangélicos. O discurso foi motivado pelo acordo judicial firmado entre a família da cantora Preta Gil e o Padre Danilo, da paróquia de Areial (PB), em um processo por danos morais relacionado a declarações feitas pelo sacerdote durante uma missa no ano passado.
Segundo o parlamentar, o padre apenas expressou convicções presentes na fé cristã ao mencionar a ressurreição, e que a decisão judicial seria um sinal de que tempos de perseguição aos cristãos estariam por vir.
Respeitosamente, penso que houve uma inversão de papéis nessa interpretação. A liberdade religiosa garante a todo cidadão o direito de professar sua fé, anunciar suas crenças e viver conforme seus valores. No entanto, esse mesmo princípio exige respeito à dignidade e à crença do outro. Quando o espaço sagrado da pregação é utilizado não para anunciar a própria fé, mas para diminuir religiões diferentes, o problema deixa de ser perseguição e passa a ser intolerância.
Se houve excesso nesse episódio, ele não parece ter vindo de quem buscou reparação na Justiça, mas de quem transformou o púlpito em palco de ataque ao diferente. A mensagem central do cristianismo nunca foi a humilhação alheia, e sim o amor, a misericórdia e a verdade acompanhada de caridade.
Jesus Cristo, maior referência dos cristãos, demonstrou isso em inúmeros momentos. No encontro com a mulher samaritana, pertencente a um povo historicamente discriminado pelos judeus, Ele escolheu o diálogo respeitoso, a escuta e a revelação amorosa, não o deboche nem a ofensa. Cristo confrontava erros, sim, mas jamais desumanizava pessoas.
É legítimo defender a fé cristã. O que não é legítimo é confundir privilégio com liberdade, ou usar a religião como salvo-conduto para atacar outras tradições espirituais. O Brasil precisa de mais convivência entre crenças, não de discursos que alimentem divisão.
Perseguição religiosa é algo grave e real quando pessoas são impedidas de crer, cultuar ou existir por causa da sua fé. Não se deve banalizar esse conceito para defender atitudes que contrariam justamente o espírito de amor ao próximo que o Evangelho ensina.
