Apesar dos avanços na educação inclusiva, a presença de pessoas com síndrome de Down no ensino superior brasileiro ainda é limitada. Segundo levantamento recente do Movimento Down, cerca de 94 pessoas com a condição estão cursando ou já concluíram uma graduação no país. O número evidencia um contraste significativo quando comparado ao total de brasileiros com a síndrome, estimado em cerca de 300 mil pessoas, e reforça o desafio de ampliar o acesso e a permanência no ensino superior.
A síndrome de Down se dá por uma ocorrência genética no par 21 formado por três cromossomos, cuja data de celebração em defesa aos direitos, inclusão social e combate ao preconceito foi celebrada no último sábado (21).
Em João Pessoa, a estudante de Direito Larissa Nunes dos Santos, 27 anos, tem transformado a própria trajetória em um exemplo de inclusão, persistência e superação. Aluna do 5º período da Faculdade Internacional da Paraíba (FPB), integrante do maior e mais inovador ecossistema de qualidade do Brasil: o Ecossistema Ânima, ela vem conquistando espaço em um cenário ainda pouco acessível para pessoas com síndrome de Down.
Desde cedo, Larissa demonstrava curiosidade e capacidade de aprendizado. Alfabetizada aos sete anos, sempre estudou em escolas inclusivas e chegou a ser tema de pesquisas acadêmicas ainda na infância. Mas o percurso escolar não foi linear. Com o passar dos anos, vieram as dificuldades de adaptação curricular, cobranças incompatíveis com suas necessidades e episódios de discriminação.
Em uma das escolas, a família enfrentou até irregularidades no registro de notas, o que inviabilizou a continuidade da estudante na instituição. A solução foi recorrer à Educação de Jovens e Adultos (EJA) para concluir o ensino fundamental. As barreiras não eram apenas estruturais. Características próprias da síndrome, como a maior lentidão na coordenação motora fina, impactaram o processo de aprendizagem, especialmente na escrita, quando exigências inadequadas, como o uso exclusivo da letra cursiva, trouxeram ainda mais desafios.
No Ensino Médio, Larissa se identificou com disciplinas como Sociologia, História, Filosofia, Biologia e Português. No entanto, perdas pessoais e problemas de saúde marcaram esse período, levando a um afastamento de cinco anos da vida escolar, acompanhado por um quadro depressivo.
Foi fora da escola que ela encontrou novos caminhos: teatro, participação em palestras inclusivas e vivências que fortaleceram sua autonomia. A retomada veio após a mudança da família para João Pessoa, em 2020. Com apoio pedagógico especializado e incentivo familiar, Larissa decidiu retomar um sonho antigo: estudar Direito. A iniciativa foi inspirada pela mãe, que chegou a iniciar o curso antes mesmo do nascimento da filha, mas não pôde concluí-lo.
“Larissa sempre disse que faria Direito pelas duas. E nunca desistiu dessa ideia”, conta o pai, Itamar dos Santos, que hoje acompanha de perto a rotina de estudos da filha. “A gente adapta a linguagem, estuda junto, aprende junto. O mais importante é ver ela feliz e determinada. Ela não aceita desistir”, acrescenta.
Rotina
Atualmente, Larissa mantém uma rotina disciplinada: leitura, revisão de conteúdos, atividades artísticas e momentos de lazer. Prefere materiais escritos e utiliza estratégias adaptadas para facilitar a compreensão. Mesmo tímida, tem avançado na convivência social e se mostra cada vez mais segura.
Determinada, já projeta o futuro: quer se formar, participar da própria formatura e abrir um escritório de advocacia. Sua trajetória lança luz sobre uma questão essencial: inclusão não é apenas presença, mas participação efetiva, com dignidade e respeito.
“Acreditamos que o ensino superior deve ser um espaço de acolhimento, respeito e oportunidades reais para todos. A trajetória de Larissa reforça o nosso compromisso com uma educação inclusiva, que valoriza as singularidades e promove o desenvolvimento de cada estudante”, destaca o coordenador do campus da FPB, Guilherme Fontana.
