Seu Alcides nunca fora homem de alianças. Casara com Dona Isaura em 1973, numa cerimônia simples, e enquanto ela usava a argola de ouro liso como um troféu de felicidade, a dele passou a morar dentro da gaveta da cômoda, junto com os botões de camisa soltos e os alfinetes de segurança. “Apertava”, dizia ele. Isaura reclamava às vezes, de brincadeira que não era só brincadeira: “Vai que as moças pensam que o senhor é solteiro?”. Ele riba, a beijava na testa. “Quem me quiser vai ter que disputar contigo, uai.”
O tempo passou e a aliança dele seguia na gaveta, esquecida como um dente de leite guardado. A dela, porém, nunca saiu do dedo. Nem para dormir. Era parte de Isaura, como o jeito dela de franzir a testa quando lia o jornal ou o hábito de cantarolar baixinho ao lavar a louça.
A morte chegou sem alarde, num sábado de manhã, com dor no peito que não deu tempo nem para o suspiro de despedida. O vazio que se instalou na casa foi de um volume insuportável. Alcides andava pelos cômodos como um espectro, tocando nas coisas dela: o roupão pendurado atrás da porta, o vidro de perfume pela metade, os chinelos de feltro ao lado da cama. A gaveta da cômoda ficou intocável por semanas. Até que, numa tarde de chuva fina, ele a abriu.
Lá estavam os dois aros de ouro. O dele, novíssimo, ainda com o brilho de 1973. O dela, desgastado, marcado por cinco décadas de vida. Ele os pegou, um em cada mão. O dela estava quente, ou era impressão sua? Sem pensar muito, tentou colocá-lo no próprio dedo. Não passava da primeira junta. Foi então que olhou para a própria aliança, a que nunca usara. E uma ideia, quieta e certeira, se instalou.
No dia seguinte, Alcides foi à ourivesaria. Pediu para soldarem as duas alianças, lado a lado, formando um único objeto. O ourives olhou curioso, mas não perguntou. Quando Alcides colocou a peça no dedo anular da mão esquerda, sentiu um peso diferente. Não era só o dobro do metal. Era o peso do tempo que não fora marcado, do símbolo que ele negligenciara e que agora carregava em dobro, por si e por ela.
Na fila do pão, a dona Marília notou: “Nossa, Seu Alcides, duas alianças? Casou de novo?”. Ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. “Não, dona Marília. Casei uma vez só. Só que agora eu uso a minha parte e a parte dela também.” A explicação circulou pelo bairro, e as pessoas passaram a olhar para aquele homem alto, de mãos calejadas de mecânico, com um respeito novo.
Os anéis duplos viraram seu ritual diário. Ao acordar, girá-los no dedo. Ao tomar café, bate-los levemente na xícara, como um brinde silencioso. Ao consertar um motor, o tinir do metal contra a ferramenta era uma companhia. As vezes, no silêncio da noite, ele contava histórias para os anéis. “Lembra, Isa, daquela vez que o carro quebrou na estrada para Poços de Caldas?” E parecia ouvir, no ruído do ventilador, a risada dela.
Agora, Seu Alcides anda pelas ruas com suas duas alianças. Não são um sinal de luto, ele explica a quem pergunta. São um sinal de cumplicidade que sobreviveu à partida. Ele carrega no dedo a promessa dele, que ficou adormecida, e a promessa dela, que nunca se apagou. Juntas, formam um símbolo novo: não do “até que a morte nos separe”, mas do “mesmo depois, ainda juntos”.
