Tudo começou quando José, cansado de estar sem mulher, sem discurso, sem carinho, de já não poder beber e até, vejam só, não poder nem mais cuspir, resolveu fazer uma greve contra Drummond. Naturalmente passivo, José decidiu chutar o pau da barraca e abrir a porta em busca de sua Minas Gerais. E, claro, sair do poema drummondiano.
A atitude de José gerou um efeito dominó. “Ora, se ele conseguiu se revoltar contra o maior poeta brasileiro, por que a gente também não pode?”, pensaram os personagens de outros autores. Sabe como é, esses “operários” das obras literárias só querem um pezinho para se rebelarem.
Capitu foi uma delas. “Que história é essa de Machado morrer e deixar por séculos e séculos amém a dúvida se eu traí Bentinho?”, indagou em seus olhos oblíquos de cigana que não aceitava de jeito nenhum ser chamada de dissimulada.
Augusto Matraga foi outro. Ele disse que não concordava com essa história de que sua redenção só aconteceria após o duelo com Joãozinho Bem-Bem. Queria retomar sua vida de antes da surra com seus desafetos, quando ainda tinha esposa. Por conta disso, resolveu desafiar Guimarães Rosa para um duelo. “Quero ver se ele vai vir com essa historinha de que o que a gente precisa é coragem! Quero ver se é homem agora”, matraqueava consigo mesmo.
O moleque Saci se rebelou também. Está certo que ele vinha do folclore brasileiro, mas foi Monteiro Lobato que o imortalizou em seus livros. A revolta de Saci era com ele, então. Cansado de pular num pé só, Saci foi a Lobato pedir para ter dois pés. “Se pelo menos com o pé eu fosse mais popular que essa besteira de halloween, vá lá”, disse revoltado, enquanto segurava o cachimbo na boca.
Já Carlinhos cansou de ser chamado de menino de engenho. “Ora, se nem engenho existe mais na Paraíba, por que vou viver eternamente com essa alcunha?”, questionou. Carlinhos, é bom que se diga, é grato a José Lins do Rego por tê-lo transformado num garoto libertino, mas não se conformava com essa história de ser chamado de menino de engenho. Queria ser o menino influencer digital, acreditem!
A ladainha revoltosa de José chegou até no exterior. Gregor Sansa disse que não queria mais ser um caixeiro viajante. Pensou até em vir para Cajazeiras e vender “furadinha” em cidades do interior de estados nordestinos, como Maranhão ou Piauí. A verdade é que ele não suportava a ideia de ter se transformado numa barata. Resmungava o tempo todo que quem devia virar uma barata era Franz Kafka. Para ele, todos os autores são repugnantes igual uma barata.
Direto da Colômbia, quem não escondeu sua insatisfação foi Florentino Ariza. Ele até agradecia a Gabriel García Marquez por ter lhe dado o amor de Fermina Daza. Mas não engolia essa história de passar 51 anos aguardando a morte do marido dela para poder viver esse amor. Ariza entendia que nos tempos de hoje ninguém mais espera tanto tempo para realizar um amor. Dizia que os tempos são outros, de covid e não de cólera. “Eu quero é poder botar no Facebook que estou num relacionamento sério com ela”, reclamava.
Já Ricardo Reis se sentia duplamente vilipendiado pelos autores. Com Fernando Pessoa, que o criou como um poeta monárquico e latinista e o mandou para o Brasil. Na sua concepção, se fosse para ser monárquico, que pelo menos morasse na Inglaterra. “E esse negócio de latinista, quando ninguém mais estuda Latim no mundo!”, bradava. Outro autor que lhe revoltava era José Saramago. Não aceitava ter sido recriado pelo escritor português apenas para morrer.
A revolta dos personagens já se alastrava feito rastilho de pólvora. Foi quando apareceu um personagem sem nome, de Vinicius de Moraes. “Calma, gente! Se a gente sair dos livros, deixamos de ser eternos. Vamos deixar como está, para que a gente não fique eterno apenas enquanto somos lidos”, recomendou. Ainda não se sabe se ele foi ouvido.
