Em um mundo marcado pela escalada de conflitos e pela erosão das regras que sustentaram a ordem internacional no pós-Segunda Guerra Mundial, duas vozes se destacam por representar caminhos opostos. De um lado, o Papa Leão XIV, que alerta para o enfraquecimento do multilateralismo e para a “volta da guerra à moda”. De outro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja política externa tem privilegiado ações unilaterais e o uso da força como instrumento de afirmação de poder.
Em recente discurso, o Papa foi direto ao apontar sua preocupação com o cenário global. Segundo ele, a diplomacia baseada no diálogo e no consenso está sendo substituída por uma diplomacia da força, exercida por indivíduos ou por grupos restritos de aliados. Para o Pontífice, essa mudança rompe um princípio fundamental estabelecido após 1945: a proibição do uso da força para violar fronteiras e impor interesses nacionais.
A crítica papal não se limita a conceitos abstratos. Leão XIV mencionou tensões concretas no Mar do Caribe, ao longo da costa americana do Pacífico, no Haiti e, de forma especial, na Venezuela. Sobre o país sul-americano, o Papa renovou o apelo ao respeito à vontade popular, à defesa dos direitos humanos e à construção de um futuro baseado na justiça, na verdade e na fraternidade. A mensagem reforça a ideia de que crises políticas profundas não podem ser resolvidas por imposições externas ou soluções militares.
A postura contrasta com a linha adotada por Donald Trump em seu retorno ao centro da política internacional. O presidente americano tem reafirmado uma visão de mundo na qual os interesses nacionais dos Estados Unidos se sobrepõem a acordos multilaterais e às mediações de organismos internacionais. Em diferentes momentos, Trump demonstrou desconfiança em relação à Organização das Nações Unidas e a tratados internacionais, defendendo que a segurança e a força militar são os principais garantidores da paz.
Essa lógica se manifesta de forma clara na América Latina e no Caribe, regiões historicamente sensíveis à presença e à influência dos Estados Unidos. As tensões envolvendo a Venezuela, por exemplo, expõem o choque entre duas abordagens: enquanto o Papa insiste no diálogo, na soberania e na reconciliação interna, a política americana tem recorrido a pressões econômicas, ameaças e ações de caráter intervencionista, justificadas em nome da segurança regional ou da defesa da democracia.
Outro ponto central do discurso papal foi a preocupação com a corrida armamentista, em especial a nuclear. Leão XIV chamou atenção para o fim próximo do Tratado New START e para o risco de uma nova corrida por armas cada vez mais sofisticadas, agravada pelo uso da inteligência artificial no campo militar. Para ele, a busca pela paz por meio das armas compromete o Estado de direito e alimenta um ciclo de medo e violência.
Trump, por sua vez, mantém uma retórica de fortalecimento do poder militar americano, apostando na dissuasão e na superioridade estratégica como pilares da política externa. Críticos apontam que essa visão tende a aprofundar rivalidades globais e a enfraquecer mecanismos de controle e cooperação internacional, justamente aqueles que o Papa considera essenciais para evitar novos conflitos de grande escala.
Apesar do diagnóstico severo, o Papa encerrou seu pronunciamento com uma mensagem de esperança. Para Leão XIV, a paz continua possível, mesmo em um cenário dramático, desde que haja “a humildade da verdade e a coragem do perdão”. É uma proposta que desafia líderes políticos a abandonar a lógica do confronto permanente e a retomar o compromisso com o diálogo.
O contraste entre as palavras do Pontífice e as ações do presidente americano revela mais do que uma divergência pessoal ou ideológica. Ele simboliza uma disputa maior sobre o futuro das relações internacionais: entre um modelo baseado em regras, cooperação e instituições multilaterais, e outro centrado na força, no unilateralismo e na afirmação de poder. Em um mundo cada vez mais instável, a escolha entre esses caminhos pode definir não apenas a política externa das grandes potências, mas o destino da paz global.
