No final do ano passado, assisti uma matéria no jornal Hoje, da Globo, sobre os 60 anos de criação do termo MPB – Música Popular Brasileira. Na reportagem, a criação do termo é atribuída ao grupo vocal MPB-4, em meados dos anos 60. O grupo gravou, praticamente, todos os grandes sucessos atribuídos a compositores da MPB, tendo gravações antológicas com Chico Buarque e outros astros do gênero. No filme “Elis” (2016), de Hugo Prata, se atribui a intérprete de “Arrastão” a criação do termo, a partir do programa “O Fino da Bossa”, que comandou com Jair Rodrigues na Record, em 1965.
O certo é que independentemente de onde de fato surgiu o termo, MPB se tornou a maior referência musical do Brasil. Em seu guarda-chuva consegue abrigar samba de raiz, o jazz americano (via Bossa Nova), música de protesto, baião, marchinhas, etc, etc e etc. Na verdade, tudo que dialoga com as raízes brasileiras, seja no ritmo, nos arranjos sofisticados ou mesmo nas letras, essencialmente poéticas e com largo uso de figuras de linguagem, como metáfora ou metonínimia; figuras de pensamento, como eufemismo, ironia, gradação; figuras de sintaxe, como pleonasmo ou elipse, e figuras de som, como aliteração, assonância, onomatopeia.
Lembro que no antigo Científico (hoje ensino médio), já estudava as letras dos grandes nomes da MPB antes mesmo de conhecê-los. Pré-adolescente, eu ouvia mais as músicas que hoje são consideradas bregas, as que mais tocavam nas rádios AMs da época. Enquanto isso, nos livros paradidáticos, analisava letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil e outros. Aquilo encantava e me levou a querer saber mais sobre esses gênios da MPB. Virei ouvinte de carteirinha pra sempre.
Ainda sobre as origens do termo, uma curiosidade. Segundo consta, antes de ser conhecido como MPB, o termo era denominado como Música Popular Moderna (MPM). A terminologia foi criada para designar canções que diferenciavam da bossa nova, mas não eram samba e nem marchinhas, “mas que aproveitavam simultaneamente a suavidade do repertório da bossa nova, o carisma das tradições regionais e o cosmopolitismo de canções norte-americanas, que se tornaram conhecidas do público brasileiro por meio do cinema”, conforme a wikipédia. Músicas como “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, e “Pedro Pedreiro”, de Chico Buarque, foram classificadas inicialmente de MPM.
Origens à parte, o mais importante é saudar os 60 anos de nossa MPB. E dos artistas que deram voz, música e letras para consolidar esse estilo. A MPB continua? Sim, tem muita gente boa fazendo música de qualidade e buscando renovar o gênero. Mas sem a força daqueles artistas que surgiram na época dos grandes festivais e em plena Ditadura Militar no Brasil. E, infelizmente, o que mais lamento, sem a pungência poética daquelas letras que fizeram nossa cabeça e que levaram o jovem estudante do Científico se apaixonar pela poesia que havia na composição daqueles artistas.
